23 de set de 2012

Sexo com pessoas do mesmo sexo

A nova geração vê as experiências eróticas como algo menos delimitado. Sem culpa, se entrega a relações com alguém do mesmo sexo, podendo depois voltar ao universo hétero.

Pode parecer moderninho demais, um comportamento de gueto, algo distante da nossa realidade. Nem tanto assim. Se você perguntar a amigos na faixa dos 20 aos 35 anos sobre relações eróticas entre iguais vai notar que homens e mulheres estão transitando mais livremente entre os sexos. Haverá quem diga que nunca manteve relação homossexual, mas já pensou em experimentar. Outros admitirão que trocaram carícias intensas com alguém do mesmo sexo sem que isso significasse uma mudança na condição sexual. Estamos falando de adultos que, sem culpa ou juízo de valores, se permitem fazer o teste e repetir a dose. São bissexuais? Não necessariamente, dizem os especialistas. A bissexualidade estaria ganhando novas faces? Essas e outras perguntas aguçam o debate e ajudam a entender que há uma tendência se consolidando. "Como hoje não é mais um bicho de sete cabeças se declarar homossexual, a sociedade está mais tolerante e as pessoas se permitem conhecer o desconhecido, o que é saudável.
A naturalidade é maior para falar no assunto e também na busca do par. A mulher se dispõe mais do que o homem à nova experiência. Faz isso sem alarde, porque não precisa se autoafirmar como os adolescentes que se engalfinham no shopping, garotos com garotos. Mas por que elas querem ter prazer em companhia feminina? Solidão? Há menos homens disponíveis? Eles estariam tão acuados, por questões sociais e emocionais, a ponto de ter a masculinidade balançada, e com pouco apetite? Nada disso. "Uma pessoa não deseja outra do mesmo sexo só por estar carente ou desiludida com o oposto. A descoberta surge com a oportunidade e advém da maturidade". A explicação para a investida nessa área está ligada, segundo ela, à queda do preconceito. Quando ele diminui ou sai da jogada, rompem-se barreiras internas. Tudo fica mais fácil; a aceitação é maior. Uma mulher que revela desejo a outra já não espera ser julgada, mesmo que não seja correspondida.
"Mulheres têm um histórico de companheirismo e carinho, o que contribui para que essas relações aconteçam". Amigas viajam juntas, divertem-se, trocam confidências, associam-se na compra de bens duráveis e às vezes dividem o namorado. No meio de tanta parceria, podem descobrir que se completam num patamar além do convencional. "É algo normal, sempre existiu. O que mudou foi a coragem da sociedade para encarar o tema e se arriscar". Quando existiam colégios internos só de meninos ou de meninas, era comum a iniciação com alguém do mesmo sexo. Depois, nunca mais tocavam no assunto, um motivo de vergonha. "Hoje, a experimentação ocorre mais tarde."
Nada é para sempre!
Outra marca dessa escolha contemporânea: ela pode se repetir, mas tende a não perdurar. De novo, a mulher se adapta melhor ao quesito, vai e volta à condição anterior de hétero, casa, tem filhos. Esses arranjos refletem mais um sintoma da nossa cultura: a fluidez. As fronteiras estão intercambiáveis; não há limites estanques no comportamento sexual. "Aquela história de ter só três possibilidades - ser hétero, gay ou bi - não dá mais conta da diversidade que vivemos". Nossa sexualidade é uma reta com vários pontos, cheia de nuanças a serem exploradas. "Tenho visto relações de vários tipos, incluindo casais de três pessoas, a necessidade de identificar e juntar pessoas em grupos é mais política do que prática. "Como ainda engatinhamos na luta por direitos e por políticas públicas, é bom ter grupos organizados e bandeiras visíveis. Um dia deixaremos esses rótulos de lado para nos declararmos simplesmente sexuais".
A ciência não explica exatamente de onde vem o desejo. "Há hipóteses de que, independentemente do objeto cobiçado, ele tenha raízes psicoemocionais ou genéticas". "O que sabemos é que há forte impacto cultural sobre ele. Às vezes desejamos o que aprendemos a admirar." Assim, não seria difícil explicar o envolvimento de duas mulheres ou de dois homens que se respeitam e valorizam as qualidades do par.

Bissexuais em potencial

Sigmund Freud acreditava que todos nascem potencialmente bissexuais. No livro Três Ensaios Sobre a Teoria da Sexualidade, de 1905, ele escreve que homens e mulheres são moldados pela sociedade para gostar de uma ou outra coisa. O catolicismo teve um peso nisso, associando sexo ao pecado. Na Era Vitoriana, a relação entre iguais virou tabu. "Qualquer ato sexual que fugisse à finalidade de constituir família passou a ser visto como doentio". "A mudança radical veio nos anos 1970, e repercutiu antes na Europa". No Brasil, a flexibilização vem ocorrendo nos últimos 20 anos. A internet é apontada como um facilitador. "Um homem entra num chat, outro propõe sexo e ele, que nunca tinha pensado no assunto, começa a considerar". Há comunidades online e redes sociais para aproximar pessoas do mesmo sexo. O site homo Leskut anuncia em sua apresentação: "Indecisas ou curiosas são bem-vindas". O importante é saber que ninguém é obrigado a se submeter, sob pressão, à experiência.
"Dar liberdade a si não significa atropelar os próprios limites". Fazer o que não queremos traz resultados ruins. Antes, é necessário prestar atenção aos desejos e sentimentos. Não somos obrigadas a testar de tudo para sermos felizes".