4 de mar de 2014

“Cura” de homossexuais: deixemos o assunto para os psicólogos


Pois, então, a Comissão de Direitos Humanos da Câmara quer decidir se, afinal de contas, psicólogos podem ou não fazer tratamento para a cura de homossexuais.
Sim, porque no fundo é isso mesmo. Teve gente que disse que não é esse o ponto do projeto de João Campos, que chega à comissão presidida por Marco Feliciano. Mas, vejamos quais são os dois trechos da resolução do Conselho Federal de Psicologia que seriam derrubados:
Art. 3° – os psicólogos não exercerão qualquer ação que favoreça a patologização de comportamentos ou práticas homoeróticas nem adotarão ação coercitiva tendente a orientar homossexuais para tratamentos não solicitados.
Parágrafo único – Os psicólogos não colaborarão com eventos e serviços que proponham tratamento e cura das homossexualidades.
Art. 4° – Os psicólogos não se pronunciarão, nem participarão de pronunciamentos públicos, nos meios de comunicação de massa, de modo a reforçar os preconceitos sociais existentes em relação aos homossexuais como portadores de qualquer desordem psíquica.
É bastante claro: o psicólogo, por essa resolução, não pode tratar a homossexualidade como doença, adotar “ação coercitiva” que oriente a tratamento “não solicitado”, nem participarão de ações que a divulguem que a homossexualidade é uma doença.
Simples assim: a comunidade científica (no caso, os psicólogos) chegou à conclusão de que algo (a homossexualidade) não é uma doença, e portanto proíbe que seja tratado como tal. Ponto.
A discussão toda começa, de fato, com o que seja a homossexualidade: é uma característica inerente da pessoa ou um comportamento? Há muita gente que defende que é algo que a pessoa simplesmente é, sem escolher. Faz parte dela, assim como outras pessoas simplesmente são heterossexuais, sem jamais terem decidido isso.
Em qualquer caso, obviamente não é uma doença. Não é algo que cause mal a ninguém: nem ao homossexual nem a qualquer outra pessoa. Não porque ser “tratado”, portanto.
A confusão, unicamente, surge em função de um ponto de vista moral que, aliás, é de muitos brasileiros. Há quem considere a homossexualidade como algo moralmente condenável.
Não consigo concordar nem de longe com essa visão: o homossexual, não custa repetir, não está fazendo mal a absolutamente ninguém, assim como o heterossexual não está fazendo mal a ninguém em razão de sua orientação sexual.
É o tipo do ponto que demorará outras décadas para que haja qualquer consenso ou possibilidade de concordância. Mas o ponto, em política, pelo menos, não é nem esse.
Como mostra a bela matéria de Chico Marés na Gazeta deste domingo, há uma corrente importante, representada na reportagem pela professora Vera Karam, da UFPR, que defende que as opiniões religiosas não são apropriadas para a discussão política.
É claro que religiosos podem participar da discussão, mas os argumentos têm de ser políticos, não religiosos. Ou seja: para os liberais, não há como “legislar sobre moral”.
E, sem a ideia de que a homossexualidade é “moralmente errada”, não sobra muito para os defensores do projeto de João Campos discutirem. Ficarão perorando, mas não terão força.
O que será muito bom: deixe-se que os psicólogos, afinal, decidam o que é assunto de psicólogos.

Matéria publicada em: 06/05/2013
Por: http://www.gazetadopovo.com.br/blogs/caixa-zero/cura-de-homossexuais-deixemos-o-assunto-para-os-psicologos/